Relato de parto feito por um pai | Deo Vero

Relato de parto feito por um pai

Por: Jefferson De Sousa Leite Oliveira
. Atualizado: 24/10/2020 às 23h:26
Foto reprodução

Olga Soares Leite Oliveira teve uma experiência muito difícil em seu primeiro parto. Jovem, sofrendo psicologicamente de várias formas, chegou ao hospital com pouca dilatação, mas por já estar com 42 semanas de gestação e ser atendida em hospital público, passou por todo tipo de intervenções desnecessárias para acelerar o parto, como:

  • Bolsa estourada artificialmente;
  • Indução por oxitocina (que rendeu um efeito extrapiramidal horrível);
  • Episiotomia com mais de 50 pontos que fez com que sua recuperação demorasse meses

Depois dessa experiência, não pensava sequer em ter filhos e foi assim que a conheci, logo eu que sempre desejei ser pai.

Após muito diálogo e um processo de conversão imenso, Olga passou a desejar ter filhos, e não apenas um. O parto normal, contudo, continuava a ser um trauma, e dos piores, então decidimos inicialmente que ela tentaria uma cesariana programada com um medico bastante acostumado a múltiplas cesáreas, Dr. Ciro do Hospital Anchieta em BSB. A experiência foi muito melhor do que o parto da Ester (primeira filha), apesar de toda a dificuldade própria de uma cesárea. Vimos uma luz no fim do túnel e assim nasceu Arthur.

Muito amadurecimento depois, percebemos que, se fosse a vontade de Deus, nós também desejaríamos viver uma vida cercado dos nossos filhos e desejosos por uma casa cheia, junto com o desejo real, veio também o medo de que algo atrapalhasse tudo isso, pois por mais experiente que seja o médico, a não formação de aderências pós-cesárea dependia muito de como o organismo de Olga responderia às cirurgias e essa era uma incógnita que para nós estava sendo insuportável.

Num ato de pura coragem e fé, Olga me disse que queria sim tentar um parto natural que fosse mais humano. Queria sentir a verdadeira experiência, sem as induções desnecessárias e principalmente queria dar uma chance aos nossos futuros filhos de virem com uma maior segurança.

Iniciamos uma busca por conhecimento (virei quase um doulo), por profissionais que nos ajudassem com isso e assim fomos vivendo nossa experiência até o presente dia.

O Parto

Há uma semana Olga vivia os prodromos e nos últimos 3 dias vieram 2 alarmes falsos de que o trabalho de parto iria evoluir. Uma coisa muito difícil para a Olga era a ansiedade e para mim era o medo de que essa ansiedade lhe tirasse o sono necessário para o trabalho de parto de verdade. Graças a Deus e aos vários terços nessa intenção, minha esposa ouviu seu organismo, dormiu, comeu e tentou se acalmar.

Ontem, dia de seu aniversário, saímos, nos divertimos, e já um pouco antes de celebrarmos na casa da minha sogra veio a primeira contração. Era mais ou menos umas 15 horas quando aconteceu e se repetiu ao chegarmos na casa da sogra e mais umas duas vezes durante a festinha. As contrações eram como as dos prodromos, baixa intensidade e espaçamento aleatório. Imaginamos então que seria outro alarme falso.

Voltamos para casa a noite, por volta das 22:30 e Olga apresentando sempre essas contrações espaçadas e ainda sem ritmo, mas algo me chamou a atenção, pois ela começou a sentir fortes pontadas no colo do útero, o que indicou para mim que o colo estava afinando e se preparando para as contrações. Nessa hora, para não deixa-la ansiosa, mas para não perdermos o nosso fim último de vista, iniciei o primeiro mistério do Rosário. Por ser sexta ela ficou meio sem entender porque eu rezava o mistério gozoso e não o doloroso, mas eu pedi que ela me acompanhasse. Ela entendeu, e sugeriu que rezaríamos os dolorosos LOGO.

Nada nos indicava isso a não ser a fé e poucos sinais. Olga apenas expulsou o tampão mucoso no trabalho de parto ativo e a bolsa com mecônio estourou poucos minutos antes do parto, então, até aquele momento, tudo estava muito tranquilo. Fomos a Belém Jerusalém com os mistérios gozosos, e agora nos faltava o Calvário.

Após nos recolhermos para dormir, às 01:08 da madrugada Olga pede para eu ficar com ela, pois as contrações tinham aumentado bastante a intensidade da dor. Ela havia entrado na fase latente e rapidamente evoluía para a fase ativa. Vi isso pelo seu rosto e porque ela começou a “soltar a voz” para relaxar da dor. Imediatamente chamei a nossa doula Berenice, que por sinal é EXCELENTE e recomendo a todas as mães de Brasília, e informei que dessa vez o parto seguiria, pois a própria Olga começava a viver uma experiência de dor que ela não sentiu com Arthur e que lhe foi tirada pela indução e pela episiotomia no da Ester. Chamei também minha querida mãe Maria Fátima Sousa Oliveira, que nos auxilia até agora com o pequeno Arthur.

Minha mãe buscou Arthur para cuidar dele, a doula chegou e as contrações que se resolviam com a agua quente do chuveiro, agora “não se resolviam mais”. A dor era grande demais e as contrações estavam vindo de 3 em 3 minutos.

O carro estava pronto e às 03:30 fomos para o hospital, chegando aqui as 04:00 horas. Pela intensidade das contrações e espaçamento, era visível que não iria demorar.

O exame do toque foi feito por volta das 04:30 e Olga estava com 6cm de dilatação. Aqui cabe um adendo: eu não sou mulher, mas peço para que TODAS estudem sobre o parto. Com a dor que Olga sentia e contrações ja de MINUTO EM MINUTO (ela quase não conseguia respirar), a dilatação não indicava NADA. O normal é que a mulher dilate 1cm a cada 3 ou 4horas (em media), mas era EVIDENTE que esse não seria o caso da Olga, pois o que dita o ritmo da dilatação são as contrações e as dela eram muito intensas e muito pouco espaçadas. Eu e Berenice falamos para ela IGNORAR aquela dilatação e o fato do médico ter dito : “AINDA está só com 6cm”. Sabíamos que alguém com aquela dor e aquelas contrações, levando em consideração apenas o dado dos “6cm” iria pedir uma cesárea. Ora, se é, em média, 1cm a cada 3 horas, a Olga viveria aquilo tudo por mais 12 horas. São essas coisas, dentre outras, que levam uma mulher a desistir, mas eu e Berenice sabíamos que não ia durar tudo isso, e não é nada de “sentimentalismo”, mas o fato de que são as contrações que ditam o ritmo da dilatação.

Às 05:00 da manhã Olga entra na fase de transição. Estávamos na sala de pré-parto e ela só confiava em mim para segura-la na posição que ela tinha achado melhor para ficar nas contrações. Eu já estava moído fisicamente, pois desde as 04:00 suportava todo o peso dela a cada contração, pois ela se jogava no chão e não tinha mais forças nas pernas, então eu que tinha que segurar todo seu peso a cada contração literalmente de 1 em 1 minuto que ela tinha.

Na transição, já com 10cm de dilatação, ela pediu analgesia. Senti muita pena, pois via o rosto dela e compreendia o nível da dor, mas eu sabia que o pior havia passado e ela tinha saído vitoriosa. A fase de transição é muito rápida e é nela que as mulheres realmente pensam que não vão mais conseguir. Estávamos os dois debaixo do chuveiro com a rouoa que chegamos no hospital, então olhei pra ela e mostrei o tampão que havia saído, a bolsa que havia estourado, o sangue que escorria e disse que tudo aquilo era sinal do progresso que tinha sido feito. Que ela tinha suportado até ali e que uma analgesia agora apenas iria dificultar o que PRECISAVA acontecer.

E como precisava!

05:30 medem os batimentos cardíacos e vi que a enfermeira precisou colocar o aparelho MUITO baixo para achar o coração da neném. Fui no ouvido da Olga e disse: amor, ela está no canal vaginal. VAI NASCER! A Olga achava que eu tava falando tudo aquilo só para anima-la, não acreditava nisso, mas as 05:50 ela disse que sentiu uma ardência muito forte (passagem pelo canal vaginal, ainda nãoera o círculode fogo) . Berenice correu para IMPLORAR a sala de parto humanizado, que na Maternidade Brasilia só concedem depois de constatar 07cm de dilatação (e ng acreditava que Olga já estava com 10 e parindo, além de mim e Berenice). No que Berenice saiu da sala Olga teve uma forte contração com força para baixo e gritou: “Está saindo”. Eu pedi às enfermeiras que corressem pois precisava segurar a Olga que já não tinha força alguma nas pernas. Correram e aquele primeiro empurrão já tinha feito sair a cabeça da neném. Posicionaram-se esperando a outra contração e, pronto, nasceu Rute Maria, ali, debaixo do chuveiro, com uma mãe que finalmente podia acreditar que tudo em seu corpo a faria chegar lá e com um pai que tinha rezado muito por aquilo.

Estamos na maternidade e há mais coisas a serem ditas, mas por ora: Viva à Olga, viva à Rute Maria e Viva a Nosso Senhor Jesus Cristo. Elas por serem duas valentes mulheres empenhadas em seus ofícios de mãe e filha e Nosso Senhor pela graça de um parto do jeito que pedimos. Como tenho orgulho de ser um mero coadjuvante disso tudo, pois isso tudo que contei, vi!

Deus abençoe todas as mães!

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