R.R. Soares afirma que “água consagrada” por ele cura Covid-19

Mathias Ribeiro
. Atualizado: 22/05/2020 às 20h:02

Depois do pastor Valdemiro Santiago, da Igreja Mundial, que prometia uma falsa cura do coronavírus através da venda de uma semente por R$ 1.000, outro líder evangélico neopentecostal está anunciando um “milagre” contra a doença. O pastor Romildo Ribeiro Soares, mais conhecido como R. R. Soares, tem anunciado ao fiéis uma água “consagrada” por ele em ritual para curar o novo coronavírus. Durante o programa “SOS da Fé”, o pastor fala das propriedades “milagrosas” de uma oração feita por ele somada à ingestão do copo de água consagrada, enquanto pede doações aos fiéis.

Para comprovar a eficácia da “água consagrada”, R. R. Soares criou um placar no qual mostra os curados por sua oração. Em um dos vídeos sobre o produto, as assistentes do programa reproduzem relatos de supostos curados pela oração, mostrando pessoas de diferentes locais do país que adquiriram a água abençoada por R.R. Soares.

Além de ser dono da RIT TV (emissora UHF) e da Nossa TV —uma minúscula operadora de TV paga—, R.R. Soares há décadas ocupa a grade de emissoras como a Band e a RedeTV.

Em seus programas o pastor fala das propriedades “milagrosas” de uma oração feita por ele somada à ingestão do copo de água consagrado por ele, enquanto pede doações aos fiéis.

Ele já havia “anunciado” em abril uma oração-comando que curaria o coronavírus, como esta coluna antecipou com exclusividade.

Em vídeo, dois assistentes do missionário anunciam as curas em sequência dos fiéis que “acreditaram” no poder da água benta:

“Tenho dois casos. José Vicente, pelo You Tube, Ele conta que o Alex Mesquita do Rio de Janeiro estava internado no Rio há 11 dias e recebeu alta”, proclama uma moça.

“E o segundo?”, cobra Soares.

“É da Mirna Santos, pelo Facebook. A mãe estava com o vírus, ficou 15 dias no respirador e após a oração ficou curada”, segue a assistente.

“João Machado, e você tem quantos do Covid, cobra o líder da igreja?”

“Tenho seis testemunhos do Covid”, responde.

“Primeiro”, ordena Soares.

“Primeiro é Sebastião do Rio de Janeiro. Fazia oito dias que a filha dele estava com Covid, mas depois da oração e do copo com água ela está curada”, diz.

E segue: ” Cosilene (sic) do Rio de Janeiro estava internada com Covid mas ela fez a oração e foi curada”.

E segue a ladainha de supostos testemunhos de curados pelo milagre do pastor. No vídeo obtido pela coluna (veja acima) não há nenhum testemunho presencial sobre a “cura”. São todos relatos em segunda ou terceira mão, do tipo “o cunhado da fulana melhorou”.

Fraude

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), ainda não existe nenhuma cura ou vacina que proteja as pessoas do novo coronavírus, a principal medida para evitar a enfermidade é o isolamento social.

Ministério Público

Assim como fez no caso de Valdemiro, o Ministério Público Federal vai investigar o caso e pedir a retirada do ar dos vídeos, que estão nos canais da igreja nas redes sociais.

Os procuradores também podem acusar Soares de estelionato e prática de charlatanismo, entre outras contravenções.

“Não há evidência conhecida de cura da Covid-19 por meio de alguma divindade nem por ingestão ou plantação de feijões mágicos”, disse o MPF para fundamentar sua investigação contra Valdemiro.

Desespero por dinheiro
Desde a expansão da pandemia e o início do confinamento, em meados de março, líderes de igrejas evangélicas no Brasil se mostram desesperados porque os cultos foram restritos e as doações e dízimos secaram.

Soares, Edir Macedo, Valdemiro Santiago e Silas Malafaia são alguns dos religiosos que, primeiro, menosprezaram a importância e o poder da doença; em seguida passaram a pressionar autoridades a poder retornar com os cultos.

Soares veio pedir na TV que fiéis fizessem doações por meio de boletos online.

Nos últimos dois finais de semana, por exemplo, Santiago chegou aglomerar mais de 3.000 pessoas em sua sede em São Paulo.

As igrejas também pressionaram e conseguiram que TVs como Band, RedeTV e Gazeta baixassem o preço cobrado pelo “aluguel” de horários da programação.

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