Ricardo Donizette

Por que Deus não ajuda as crianças da África? Contrapondo o banal argumento ateísta

. Atualizado: 16/04/2020 às 05h:47

É comum a qualquer cristão ouvir, pelo menos uma vez na vida, tal alegação por parte de ateus, os quais proferem que: “se Deus realmente existisse, ele ajudaria as crianças na África, evitaria guerras e garantiria a total paz e prosperidade de toda a humanidade”. Portanto, já de início, apresento ao leitor o seguinte esclarecimento: Deus não tem o dever de resolver nossos problemas pessoais e mundanos e não agirá deste modo, pois não é essa sua função e objetivo. Pode ser um pouco chocante para alguns lerem tal alegação, porém peço calma, pois tudo será esclarecido abaixo.

No inicio da criação, Deus havia gerado um mundo sem sofrimento, onde não havia penúrias de qualquer modo, apenas paz e felicidade. Entretanto, por conta de uma escolha por parte de Adão e Eva, em desobedecer às ordens do todo poderoso, a humanidade perdeu tal privilégio e, desde então, passamos a ser testados neste mundo, onde temos o total livre arbítrio para fazer nossas escolhas e também enfrentar as consequências, sendo percorrida toda esta trajetória com um único objetivo final, o qual consiste em salvar as nossas almas. Isto significa que tudo o que ocorre neste mundo, todas as ações humanas ou acontecimentos naturais são de fato inúteis se não causarem de algum modo a salvação de nossa alma, que é eterna.

Uma vida humana costuma durar em média 80 anos, logo, faço a seguinte reflexão: o que são 80 anos perto de toda a eternidade? A vida humana mundana, comparada à vida de nossa alma pós morte corporal, pode ser igualada à uma bactéria minúscula que se expõe defronte à toda a imensidão do universo, ou seja, por mais que as ações da mesma cheguem a ter certa função mundana, de forma prática acabam sendo insignificantes perante a eternidade! De fato, ações de bondade e caridade, mesmo que não contribuam para salvar almas, são extremamente louvadas e agraciadas por Deus, pois estas refletem nossa bondade e solidariedade para com o próximo, aliviando-o de seu sofrimento, destarte, de modo algum tais atos estão sendo discriminados nesta obra, estão apenas sendo expostos como menos importantes, pois servirão de ajuda apenas à bactéria e não causarão qualquer efeito na imensidão do universo.

Quando expus no início deste texto que Deus não tem o dever de ajudar em problemas mundanos, não aleguei de forma alguma que estamos abandonados, muito pelo contrário, Deus costuma sim agir, porém, de forma indireta e, muitas vezes, utilizando seres humanos e instituições como seus instrumentos, como por exemplo a Igreja Católica, que é a maior instituição de caridade do mundo e trabalha a serviço de Deus gerindo hospitais, leprosários, orfanatos, asilos, etc, sendo estes em grande quantidade no continente africano. Porém, é exigir demais atribuir a Deus a condição de “gênio da lâmpada”, e solicitar perante o mesmo resolução por meio de mágica, para problemas mundanos criados pelos próprios humanos.

Explorando com mais atenção a questão africana, podemos apontar superficialmente como causadores de seus problemas atuais de pobreza: as guerras ocorridas no passado entre seus próprios povos, a exploração por parte do colonialismo ocorrido há séculos e por fim a má gestão por parte dos atuais líderes locais. Isto é, se as crianças africanas hoje passam por problemas, a culpa não é de Deus, mas sim, das más escolhas por parte dos seres humanos, as quais geraram consequências catastróficas. Destarte, como tal situação fora gerada por meio de escolhas humanas, não há o que se dizer acerca de interferência divina, pois qualquer interferência por parte de Deus nas causas deste problema, estaria atentando contra o livre arbítrio.

Até mesmo as guerras mundiais que foram iniciadas por conta de escolhas humanas não foram passíveis de intervenção divina direta. Entretanto, ao observarmos toda a história e analisar o contexto da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), podemos de fato alegar que houve certa intervenção, dado que, de forma indireta, Deus prestou auxílio aos aliados e os levou à vitória perante a ditadura nazista em 1945. Para quem desconhece tal história, no inicio do conflito, após a rendição da França, o Reino Unido, liderado por Winston Churchill, ficou praticamente sozinho na batalha por um longo tempo, e teve de resistir contra toda a armada nazista, sem auxílio de um aliado forte. A Alemanha possuía mais poder bélico e superava em grande escala a força de guerra britânica, todavia, o Reino Unido com a ajuda de Deus, se manteve sólido no conflito e derrotou Hitler junto aos EUA, URSS e outros aliados em 1945. Dado o exposto, podemos facilmente alegar que houve interferência divina neste caso, e se o Reino Unido (o qual sozinho não tinha chances contra a Alemanha) tivesse sido derrotado antes da URSS e EUA entrarem na guerra a seu favor e equilibrarem a “balança de força”, toda a marinha britânica teria sido tomada por Hitler, e seu poder que já era devastador, seria aumentado em tamanha proporção a ponto de que nenhuma nação no mundo fosse capaz de o derrotar, fato que fora evitado pelos britânicos com a ajuda do todo poderoso.

Até conosco, em nossas necessidade individuais, Deus age de forma indireta prestando-nos auxilio, porém, assim como em qualquer caso, o problema não é resolvido num passe de mágica. Se você reza por uma melhoria na sua vida financeira, não irá dentro de segundos aparecer uma grande quantia de dinheiro em sua frente, o que procederá é que Deus te dará saúde, sabedoria e oportunidades a fim de que você consiga um bom emprego ou inicie um empreendimento e, através de seu esforço, consiga melhorar a própria condição financeira.

Não podemos também nos esquecer que Deus é um pai bondoso, que está a todo momento implorando para que o abracemos e fiquemos ao seu lado. Deus é como um Pai que está de braços abertos e chama sem cessar pelo seu filho. Porém, muitas vezes, nós, por meio de nossas atitudes, o empurramos, saímos do seu abraço e ignoramos o seu chamado, dedicando-nos aos prazeres mundanos e às necessidades da carne, os quais são passageiros e impedem que nossa alma eterna alcance a salvação. Portanto, antes de exigir qualquer ação por parte de Deus, devemos nós nos esforçar para alcançar a libertação do pecado, correr até o Pai, o abraçar e viver em estado de graça ao seu lado, nos prontificando assim, a ser usados como seus instrumentos, a fim de que lutemos por nossa salvação e pela salvação de nossos irmãos.

Em virtude dos fatos apresentados, está esclarecida a alegação comumente exposta por céticos, os quais cobram a ajuda direta de Deus, para um problema que fora iniciado por próprios seres humanos, uma vez que, além de tais problemas não serem de fato relevantes perante a eternidade e a salvação de nossa alma, Deus não pode interferir diretamente nos mesmos por meio de mágica, pois estaria agindo fora de sua função e contra as leis naturais, não pode evitá-los pois a maioria são produzidos por nossas próprias escolhas, não passíveis de interferência, pois tal ato violaria o livre arbítrio. E, por fim, fica elucidado que ele sim age para nos ajudar e ajudar as crianças da África, porém por meios indiretos e através de seus servos mundanos.

Concluo a seguinte obra com a passagem bíblica de Romanos 8, 18:

“Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada”.

Referências

A BÍBLIA. Tradução de João Ferreira Almeida. São Paulo: King Cross Publicações, 2010. Velho Testamento e Novo Testamento.
CHURCHILL, Winston. Memórias da Segunda Guerra Mundial. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Harper Collins, 1ª Ed., 2017
FRANCISCO, Allan. Porque a África não é desenvolvida economicamente. 04/07/2018- https://super.abril.com.br/mundo-estranho/por-que-a-africa-nao-e-desenvolvida- economicamente/

Encontrou algo errado na matéria?

Nosso apostolado possui em sua equipe editorial jornalistas profissionais, sacerdotes, professores e leigos, por esta razão, é possível que o conteúdo do nosso site contenha erros e para isso precisamos da sua ajuda.




    Leia Mais

    Comentários

    Apenas usuários logados podem comentar ou responder nossas matérias.