O Erro de Marcel Lefebvre | Deo Vero
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Carlos Ramalhete

O Erro de Marcel Lefebvre

De como a desesperança modernista levou um Bispo emérito a criar um cisma

. Atualizado: 2/10/2021 às 04h:36

Transmiti no perfil de Instagram da Quinta São Tomás uma palestra em vídeo intitulada O Erro de Lefebvre, em que procuro apontar:

1. O erro tático principal de D. Marcel Lefebvre, fundador da SSPX, que na prática fez com que os piores horrores da confusão litúrgica do início dos anos 1970 perdurassem até hoje, dificultando tremendamente à reforma litúrgica um avanço real, com correção ortodoxa das heterodoxias e simples ideias de jerico então iniciadas, e;

2. As origens filosóficas e teológicas deste erro.

Resumirei aqui o que foi dito, com alguns esclarecimentos que pelo que vi nas perguntas que me foram feitas após a palestra fazem-se necessários.

ORIGEM DO PROBLEMA:

A origem filosófica do erro de Lefebvre foi a sua formação intelectual em ambiente contaminado pelo movimento (extremamente) modernista de (extrema) direita maurrasiano, ou seja, influenciado e em grande medida encabeçado por Charles Maurras. Comentei na palestra que é muito triste que tendo sido o Sr. René Lefèbvre (pai do bispo Marcel Lefebvre, de que tratei na palestra e trato aqui; o filho não herdou o acento no nome) um verdadeiro herói de guerra, assassinado pelos alemães em um campo de concentração por suas valorosas ações na Resistência católica francesa antinazista, tenha seu filho aderido à escola de quem disse, com todas as letras, que os membros da Resistência seriam “terroristas” que deveriam ser mortos quando capturados e cujos familiares deveriam ser tomados como reféns para também serem mortos se a morte dos combatentes não bastasse para fazer cessar a Resistência. A infeliz colaboração de Maurras com o regime-fantoche dos nazistas fez com que em 28/1/1945, logo após a Libertação da França, ele tenha sido justamente condenado por alta traição e inteligência com o inimigo, com pena de prisão perpétua e degradação nacional (retirada de títulos, medalhas, etc.). Em outras palavras, o filho — que seria um desses reféns assassinados, caso a retórica de Maurras houvesse sido adotada pelas autoridades colaboracionistas — aproximou-se dos inimigos figadais de seu próprio pai ao ponto de sagrar Bispo de Nenhures um cidadão conhecido por suas posições extremistas, negação do Holocausto, etc.

Lefebvre filho não apenas foi aluno de um conhecido maurrasiano no seminário (afinal, quem não teve um mau professor?), mas também declarou acerca da proibição papal do movimento (de que tratarei a seguir) que este “[e]ra um movimento de reação contra a desordem que a maçonaria causava no país, na França: uma reação sã, definitiva, um retorno à ordem, à disciplina, à moral, à moral cristã […]. O fato de o Santo Padre o ter condenado foi contrário à ordem e cortou os braços da contrarrevolução”. Mais ainda, a formação dada sob sua supervisão a seus discípulos continua sendo influenciada pelo modernismo de direita maurrasiano. O antigo superior-geral da SSPX na Bélgica, Pe. Aulagnier, afirmava seu orgulho de ter “sido formado na escola maurrasiana”(!). A Fraternidade fundada por Lefebvre organizou pelo menos uma vez uma peregrinação ao túmulo do Marechal Pétain, fantoche francês dos nazistas apoiado por Maurras, durante a qual o superior do distrito francês da SSPX, Pe. de Cacqueray, abençoou-lhe o túmulo.

Creio que o escrito acima baste para mostrar tanto a ligação das ideias de Lefebvre às de Maurras quanto o direitismo deste. Mas e seu modernismo, como se pode demonstrar? É o que farei a seguir.

Maurras teve o privilégio de estudar o pensamento tomista, mas desde muito cedo dele se desvencilhou, afirmando considerar “infantil” a epistemologia escolástica. É curioso que esta mesma epistemologia tenha sido provada correta pelos avanços dos exames médicos de imagem atuais, mas não é isto que vem ao caso. O que vem é que a base de seu pensamento é uma versão do arremedo moderníssimo de filosofia de Auguste Comte, dito positivismo, misturada à moda da casa em seu brilhante, porém problemático intelecto, com o evolucionismo darwiniano. Para ele a política era, se não tudo, ao menos o essencial, e ela deveria ser “científica” (como queria Comte) e “biológica” (num sentido darwiniano). Escreveu mesmo um ensaio sobre o tema chamado “Da biologia à política”!

Comte dizia que a humanidade passaria por três eras, e criou até mesmo uma curiosíssima “Igreja Positivista” (que ainda tem prédios históricos no Brasil, que tende a guardar os horrores do Século XIX que a França descarta, como o positivismo e o kardecismo), em que os santos são Newton, Darwin e Galileu, Deus é substituído pela Razão, etc. Nada disso foi adotado por Maurras, que sempre se declarou agnóstico (tendo miraculosamente retornado à Igreja três dias antes de falecer, felizmente) e declarava com todas as letras não crer nem nos dogmas da Igreja nem nos Evangelhos, segundo ele escritos “por quatro judeus obscuros”(!). Um detalhe da visão comteana, contudo, foi devidamente incorporado por Maurras: a Igreja era por ele vista como uma instituição (humana) benfazeja à sociedade e — no caso do forte nacionalismo maurrasiano — componente indispensável da formação cultural da França, portanto digna de apoio social. Tendo tido “uma noite de êxtase” provocado pela leitura da Síntese subjetiva de Comte, ele reconheceu na “morfologia histórica” do catolicismo um “princípio de paz e de civilização” e na Igreja o grande princípio da ordem social francesa, logo um bem para a França. Palavras dificilmente conciliáveis com a noção da Realeza de Nosso Senhor Jesus Cristo, diga-se de passagem, mas pano de fundo da formação intelectual de Lefebvre.

Vale, aliás, notar como este agnosticismo ultranacionalista que vê na Igreja valor por sua ação de organizadora e plasmadora da sociedade acaba sendo próximo do panenteísmo do “tradicionalismo” guénoniano, que vê também este papel da Igreja na Europa, mas o iguala ao do hinduísmo na Índia ou do Islã no Oriente Médio. Como Maurras não se preocupava nem com a Índia nem com o Oriente Médio, pode-se cogitar se aceitaria ou não tal extensão, mas que o conceito maurrasiano do valor e do papel da religião é certamente no mínimo kantiano e comteano (logo moderno, e modernista ao fazer-se ideológico, até os gorgomilos) é indubitável.

Em outras palavras, todo o valor que Maurras reconhecia na Sã Doutrina católica, bem como na hierarquia, era o seu papel de coesão social e formação da nacionalidade francesa. Convenhamos que as coisas estão perfeitamente de ponta-cabeça em tal visão. Vemos todavia, na forma como Lefebvre lamentou a condenação do maurrasianismo, que citei acima, que é nessa escola que ele realmente foi formado. Para ele o maurrasianismo seria, lembro, “uma reação sã” (em que a Doutrina é mera nota de rodapé da História divinizada no positivismo comteano e no maurrasianismo!), bem como “um retorno à ordem, à disciplina, à moral, à moral cristã” (cujo papel, todavia, não seria o de santificar a França; ao contrário, seria a França a santificar a moral cristã ao reconhecê-la como elemento cultural primordial seu). E, mais ainda,”[o] fato de o Santo Padre o ter condenado foi contrário à ordem e cortou os braços da contrarrevolução”. Que ordem seria essa, em que o natural dá as ordens e abençoa o sobrenatural?! Que contrarrevolução seria esta que, em última instância, não tiraria do altar da Catedral de Notre-Dame de Paris a prostituta nua lá coroada “deusa Razão” pelos revolucionários, na medida em que seria a França que “racionalmente” daria justificativa e justificação à existência dum altar católico?! Em que Cristo participaria do Ser-em-Si da Nação?!

E como ocorreu a condenação papal ao maurrasianismo? Tudo começou, como sói acontecer em ambientes modernistas (logo naturalistas em enorme medida) pelo endeusamento de Charles Maurras. Uma pesquisa em Lovaina demonstrou que muitos jovens “católicos” diziam-se “fiéis à Escritura e a Maurras”, como se se tratasse de coisas que pudessem ser postas no mesmo plano (aliás, repete-se o fenômeno com seu neto espiritual: o que não faltou, em termos de reações ao meu vídeo, foram canonizações de Lefebvre. Triste fenômeno). O Cardeal Andrieu, de Bordéus, chamou a atenção de seu rebanho para o perigo representado pela visão maurrasiana da Igreja, sua subordinação à nação e à política, etc. O Santo Padre Pio XI, tendo tido a atenção atraída pela manifestação do cardeal, a quem deu os parabéns, passou em seguida a ação, e em 29/12/1926 a totalidade das obras de Maurras, bem como o jornal do movimento que encabeçava, foram postos no Index (onde aliás já estavam algumas obras de Maurras, condenadas por naturalismo e filopaganismo), passando a ser de leitura proibida aos católicos. Em março subsequente, os membros do movimento foram punidos com interdito (proibição de acesso aos sacramentos). A acusação principal, perfeitamente correta, era que o “nacionalismo integral” de Maurras subordinava a religião à política e ao nacionalismo, sustentando o catolicismo apenas como meio de unir a nação francesa.

A reação maurrasiana foi péssima, e aliás lembra em muito a reação lefebvrista à paçoca mental que fizeram entre o Concílio Vaticano II propriamente dito (cujos documentos, lembramos, Lefebvre também assinou), o Missal paulino e os horrores litúrgicos do início dos anos 1970. Maurras fincou pé assim que começou a perceber que o vento em Roma não estava a seu favor, negando peremptoriamente ao Papa qualquer legitimidade para manifestar-se no plano político (que, para ele, era o único importante…) e declarando sua resistência àquilo que percebia como intromissão indevida. Seu movimento chegou a publicar uma cartinha pública ao Papa com o arrogante título de Non Possumus, “não podemos [obedecer ao Papa]”. Daí, claro, a coisa degringolou mais e mais, até a excomunhão de membros do movimento maurrasiano. Evidentemente, também usou a surradíssima carta modernista de afirmar que teria levado muitos à Igreja. O interdito dos maurrasianos foi levantado em julho de 1939 pelo Venerável Papa Pio XII, por razões políticas, dada a importância da ação anticomunista no momento de uma investida fortíssima de Stálin na Guerra Civil espanhola e a aproximação entre a União Soviética e a Alemanha nazista, concretizada no mês seguinte pelo pacto Ribbentrop-Molotov. Os livros de Maurras, todavia, continuaram no Index.

Outro movimento político-”religioso” francês havia sido condenado pela Igreja anteriormente. Trata-se do Sillon (“sulco”), condenado por S. Pio X na Carta Apostólica Notre Charge Apostolique, em 1910, por (com todas as letras) “modernismo social”. Ora, as semelhanças são muitas, e não podem deixar de ser apontadas. Ainda que o Sillon pretenda dar ao “Povo” (esse ente de razão!) a primazia, Maurras a dá à Nação. Ao democratismo do Sillon ele opõe uma monarquia absolutista, por ser — de acordo com ele — mais conforme à alma da França. O resto, todavia, é exatamente igual. Se se toma a condenação do Sillon e se substitui “Povo” por “Nação” e “Democracia” por “monarquia”, tem-se praticamente a mesma coisa. O próprio Maurras foi muito simpático ao Sillon e a seu fundador Marc Sangnier, com quem teve tão grande correspondência que foi publicada como livro. Quando da condenação do Sillon, aliás, muitos de seus membros a perceberam como tendo sido causada pela influência de Maurras sobre os teólogos sillonianos.

Imagino não ser necessário enfileirar a lista de personalidades modernistas de esquerda e de direita influenciadas por Maurras, que vai de Maritain a Lacan, passando pelos piores ditadores da Argentina, para concluir que estão mais que firmemente provados não só o modernismo de Maurras quanto o acerto da condenação de seu movimento.

Finda esta infelizmente necessária e necessariamente longa introdução, passo ao ponto seguinte: quais são as consequências teológicas do pensamento filosófico modernista (no caso, de direita) que formou Lefebvre e no qual ele formou seus discípulos?

1 — A primeira, e mais evidente, é o naturalismo comum a toda forma de modernismo. O culto à ação do homem, que toma para si apenas a primeira parte da famosa frase de Sto. Inácio “trabalha como se tudo dependesse de ti, e confia como se tudo dependesse de Deus”. Isto acaba criando uma espécie de neo-pelagianismo, em que a graça de Deus é quase irrelevante, e a pessoa seria salva por fazer coisas, usar tais roupas, etc. É isto que está na origem do gravíssimo pecado da desesperança, que acometeu Lefebvre ao ponto de “queimar os navios” em 21/11/1974 com uma cartinha desaforada meros quatro anos depois da promulgação do texto latino do Missal paulino em 30/11/1969, praticamente forçando o Bispo por cuja autoridade existia a sua Fraternidade a retirar-lhe o reconhecimento canônico dado em 1/11/1970. O mesmo vale para a desastrada sagração de nada menos que quatro(! — back-up do back-up do back-up até pode fazer sentido em informática, mas não para a Divina Providência, convenhamos) Bispos de Nenhures em 30/6/1988, menos de dois meses após voltar atrás da palavra e da assinatura dada em 5/5/1988 no acordo com a Santa Sé. Faltava-lhe confiança em Deus, e sobrava-lhe noção da importância e “necessidade” (palavra mágica até hoje para seus seguidores) de seus próprios atos.

2 — A segunda, de uma certa forma decorrente da primeira, é a incapacidade igualmente comum a todo modernismo de perceber a Igreja pelo que ela efetivamente é: Mãe e Mestra, Corpo Místico de Cristo, visível, única, hierárquica, com o tríplice múnus de reger, governar e santificar, unida pela Fé, pela Hierarquia e pelos Sacramentos.

2a. A noção lefebvrista do próprio papel, bem como do dos Bispos de Nenhures que sagrou ilicitamente, o mostra bem. Ele não queria que o superior geral da sua Fraternidade fosse um Bispo, percebendo-os basicamente como meros “ministros do crisma e da ordenação”, não como hierarcas. Ora, a percepção do Bispo como hierarca é fundamental. Até mesmo os Bispos sagrados para ajudar a outros no governo de dioceses demasiadamente grandes têm uma titularidade, ou seja, uma Igreja Particular, uma diocese in partibus infidelibus, “nas partes [do mundo controladas] pelos infiéis”, de que são titulares. A “esposa” do “esposo”. O próprio Lefebvre era titular da diocese de Synnara, na atual Turquia, hoje dominada por muçulmanos. A própria percepção de que o episcopado é um grau do Sacramento da Ordem, não meramente a entrega duma determinada jurisdição a um padre (que poderia voltar a ser mero padre ao abandonar aquele “posto”, por assim dizer) ocorreu de forma extremamente lenta, e só foi definida no próprio CVII que Lefebvre tanto acusava. Os cismáticos orientais, diga-se de passagem, não reconhecem a sagração episcopal dos lefebvristas, mesmo reconhecendo-lhes a ordenação sacerdotal anterior, por não estar ligada a uma jurisdição, ainda que titular. A invenção da figura do Bispo de Nenhures é um artifício modernista para manter a desobediência enquanto se declara da boca para fora não se estar em cisma, numa redução igualmente modernista do cisma à sua definição mais exígua de estabelecimento de autoridade territorial paralela.

2b. Do mesmo modo, não reconhecer a Unicidade da Igreja, nota sua tão fundamental que é artigo do Credo, leva os modernistas de esquerda e de direita a propôr a estranhíssima noção de haver duas “Igrejas” distintas, uma anterior e outra posterior ao Concílio. A diferença entre a esquerda e a direita, no caso, é apenas o juízo de valor sobre cada uma delas.

2c. A prontidão em pular à frente da Igreja e pateticamente tentar agarrar o volante assim que se considera que ela estaria “demorando” (de acordo com quem, cara-pálida?) a agir ou “agindo mal” (e aí se mistura toda a confusão dos pontos 1 e 2a, levando ao 2b), nega-lhe o devido reconhecimento como Mãe e Mestra, bem como de seus múnera de reger e governar, bem como de ela ser o Corpo Místico de Cristo.

3 — A segunda, também comum a todo modernismo e decorrente das duas primeiras, é a inversão completa da percepção da origem e legitimidade da autoridade, seja ela na sociedade ou — pior ainda — na Igreja. Assim como Maurras cria que a Nação daria “importância” à Igreja, o modernista percebe, consciente ou inconscientemente, a Igreja de modo extremamente semelhante àquele que a teoria política moderna atribui ao governante: um representante não de Deus, mas do povo. Ou, melhor ainda, um representante da pequena casta dos que “sabem o que é certo” (casta esta a que o modernista em questão sempre pertence, ainda que negue a outros o pertencimento) e pode falar em nome e benefício do tal povo. Assim, todo modernista considera-se perfeitamente capaz de passar juízo sobre tudo e todos: o pároco, o bispo diocesano, o Papa… Isto pode chegar ao ridículo, como quando um doidinho daqui da região fez uma passeata com uns três ou quatro cupinchas (inclusive uma moça fantasiada de freira), com cartazes e tudo, na porta da Basílica de São Lourenço Mártir, reclamando contra o Sínodo da Amazônia(!). Isso de passeata de gatos-pingados é um tipo de “simpatia” que já é patética na política, mas na religião só faz demonstrar que não se entendeu absolutamente nada. Mas não há tão grande diferença entre o que ele fez e o que muitos lefebvristas consideram não só “dever” como “forma de ação prática” de condenar publicamente isto ou aquilo, seja o mesmo Sínodo, seja a CNBB como um todo, seja qualquer besteira que achem que o Papa disse. Maneira garantida de evocar sobre si mesmos a maldição dada aos maus filhos de Noé em Gn IX, aliás. O próprio Lefebvre era mestre nesse tipo de “simpatia”, como se não só ele fosse capaz de julgar a Santa Sé (e condená-la, claro, assim como um Concílio Ecumênico inteiro, do qual participou e cujos documentos assinou), mas seu “julgamento” fosse fazer com que o Papa e a totalidade prática do Colégio Episcopal (cuja unanimidade desde os tempos patrísticos, aliás, foi sempre apontada como o critério certo da ortodoxia…) dissessem “ih, é, não sabia, malz aê”.

4 — Todo modernista, seja ele de esquerda ou de direita, adota, consciente ou inconscientemente, uma visão gnóstica da religião, em que ele é detentor de uma sabedoria que os outros não alcançam. É um pouco isto o que “explica” o erro acima, que leva todo modernista a literalmente tentar ensinar o padre a rezar Missa ou ensinar o Padre-Nosso ao vigário. No caso dos modernistas de esquerda, trata-se no mais das vezes duma versão bizarra das bem-aventuranças. No caso dos de direita, trata-se de uma espécie de “incorporação” espírita pela qual eles (não mais a Igreja, que ela teria cessado de ser Mãe e Mestra, etc.) seriam os únicos capazes de aplicar aos tempos e problemas atuais o que foi ensinado pelo Magistério anterior, o que está na Escritura, etc. A tal “adesão à Roma Eterna” lefebvrista, na verdade, é exatamente igual à Sola Scriptura protestante, em que cada protestante está firmemente convencido de que a sua leitura é a única correta. A diferença, claro, é que quando alguém se diz católico deveria haver adesão ao Magistério, não apenas aos escritos magisteriais anteriores. E mesmo estes, claro, assim como a própria Escritura, são-nos interpretados e adequados às circunstâncias pelo próprio Magistério, pela própria Igreja, não por nós mesmos.

Haveria ainda vários outros pontos a apresentar, mas como o texto já está um tanto ou quanto grande demais (sim, sou prolixo, eu sei…), passo ao cerne do meu argumento simplíssimo:

Da definição da consubstancialidade do Filho e do Pai em Nicéia (concluído em 325) à condenação definitiva das querelas e confusões arianas e quetais em Constantinopla (381) passaram-se 65 anos. A própria definição de quais são os livros da Escritura ocorreu às vésperas do Século V, e de quais versículos eles são compostos no Século XVI. Da revolta de Lutero à condenação de suas maluquices no Concílio de Trento passou-se coisa de meio século. Mais um tempinho pra sair o Catecismo Romano, aliás, e outro tempão pra que ele chegasse às mãos dos párocos, e por aí vai. Em outras palavras: o tempo da Igreja não é o nosso. Daí a sabedoria de confiar como se tudo dependesse de Deus, ainda que ajamos como se tudo dependesse de nós. Quando não se tem esta noção do tempo da Igreja e a confiança mais plena em Deus, é fácil desesperar-se. Foi o que literalmente aconteceu com Lefebvre.

Ao fazê-lo, todavia, ele reforçou (até por estar de acordo com a ala esquerda de seus confrades modernistas em absolutamente tudo, menos no juízo de valor dado a cada elemento que inventavam) exatamente aquilo que o fazia entrar em desespero.

Vejamos:

3/9/1965 — O Concílio ainda estava se aproximando do fim; “preventivamente”, por assim dizer, S. Paulo VI promulga a Mysterium fidei, sobre a Real Presença.

8/12/1965 — Conclusão do Concílio Vaticano II.

24/6/1967 — S. Paulo VI promulga a Sacerdotalis caelibatus, sobre a necessidade e valor do celibato sacerdotal.

Agosto de 1967 — “Summer of Love” — movimento hippie nos EUA. A sociedade burguesa moderna que o CVII, numa atitude, diria eu, assemelhada à de S. Josemaria Escrivá, tentou aproximar-se otimisticamente, simplesmente explode da noite para o dia. Logo após a Conclusão do Concílio!

Maio de 68 — Revolta estudantil em Paris, que leva adiante o iniciado na revolução (sexual, moral, etc.) hippie nos EUA. Hoje considera-se que Maio de 68 é a virada da Era Moderna à Pós-Modernidade. E acabara de ser feito um baita Concílio para aproximar-se do que acabou logo em seguida…

25/7/1968 — S. Paulo VI promulga a Humanae Vitae, encíclica profética sobre a regulação da natalidade, que previu tudo o que está acontecendo hoje (desrespeito à mulher, dissolução das famílias, etc.). Fazendo-o, ele foi completamente na contramão da “sabedoria” do mundo, que é loucura diante de Deus. Na prática, queimou seu último cartucho. Passou mais dez anos como Papa, mas nunca mais conseguiu mandar.

30/11/1969 — Entrada em vigor do texto latino do Missal paulino; as traduções foram sendo promulgadas uma por uma, e surgiu o boato de que a Missa teria que ser celebrada em vernáculo, com o padre atrás do altar.szw

1/11/1970 — Fundação da SSPX, com reconhecimento diocesano ad experimentum (“se der certo vai poder continuar”) da Diocese de Friburgo como Pia União.

5/11/1971 — S. Paulo VI promulga o dito Indulto Agatha Christie, que autoriza que todos os Bispos da Inglaterra e País de Gales permitam celebrações pelo Missal de 1965 (muito parecido com o de 1962; Lefebvre celebrou pelo Missal de 1965, aliás).

21/11/1974 — Declaração pública de Lefebvre, em que basicamente prega a tese modernista da existência de duas Igrejas, uma pré-conciliar e outra pós-conciliar. A diferença dele pros modernistas de esquerda é apenas o fato de que ele deseja a primeira e odeia a segunda e eles trocam o sinal, sendo que ambas, claro, são imaginárias. Afinal, a Igreja é Una.

6/5/1975 — A cuspida para cima cai de volta na cara do cuspidor, e a SSPX perde o reconhecimento canônico diocesano que tinha.

Junho de 1976 — Lefebvre ordena 13 padres canonicamente acéfalos, que não têm Bispo ou superior religioso canônico, condição proibida pela Igreja desde sempre.

22/7/1976 — O Papa S. Paulo VI suspende Lefebvre a divinis pela ordenação e formalmente dissolve a Fraternidade. Cabe notar que no Código de Direito Canônico então em vigor, a pena para a ordenação de padres acéfalos era igual à para a sagração de Bispos sem mandato apostólico, pois a definição do episcopado como grau da ordem só ocorrera no CVII. (CORREÇÃO: por razões práticas, não teológicas — mais exatamente o início da “Igreja Patriótica” chinesa, subordinada ao Partido Comunista, com Bispos cismáticos arrogando-se jurisdição sobre as dioceses — a sagração episcopal sem mandato, ainda que “movida por medo grave”, passara a ser punida com excomunhão em 1951, pelo Venerável Pio XII)

16/10/1978 — Eleição de S. João Paulo II (aos 58 anos de idade!), que consagrará seu pontificado a combater as loucuras e heterodoxias que haviam crescido loucamente nos anos anteriores, especialmente nos últimos anos do pontificado de S. Paulo VI. Pulou por cima dos maus Bispos, indo diretamente a toda parte falar com os fiéis, e passou a publicar na Internet todos os documentos assim que passou a haver esta possibilidade. O Cardeal Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, seu braço-direito, recebe responsabilidade sobre grande parte desta missão.

4/3/1979 — S. João Paulo II promulga a Redemptor Hominis, sobre o Cristo Redentor.

25/1/1983 — S. João Paulo II promulga o novo Código de Direito Canônico, que reza em seu cânone 1382: “O Bispo que, sem mandato apostólico, confere a alguém a consagração episcopal e, igualmente, quem dele recebe a consagração incorrem em excomunhão latae sententiae reservada à Sé Apostólica.” Ou seja: o decretado por Pio XII foi abrigado pelo novo CIC, em virtude da definição magisterial conciliar da Sagração Episcopal como grau da ordem, de que aliás depende a validade das sagrações dos Bispos de Nenhures que em breve Lefebvre sagrará.

3/10/1984 — S. João Paulo II promulga a Quattuor abhinc annos, dando alcance mundial ao privilégio que S. Paulo VI concedera aos Bispos da Inglaterra e País de Gales e permitindo que qualquer Bispo autorize seus padres a celebrar pelo Missal de 1962 (cuja única diferença em relação aos anteriores, com a exceção da reforma piana da Semana Santa, era a inclusão de S. José no cânon). Vê-se claramente a inclusão da questão litúrgica na “ordem do dia”.

Outubro de 1986 — S. João Paulo II manda que uma comissão de cardeais e bispos, chefiada pelo Cardeal Ratzinger (futuro Papa Bento XVI), escreva um novo Catecismo Romano Universal, para debelar as loucuras (anti)doutrinais em curso..

25/3/1987 — S. João Paulo II promulga a Redemptoris Mater, “Mãe do Redentor”, sobre a importância da Ssma. Virgem na economia da Salvação.

5/5/1988 — Lefebvre e o Cardeal Ratzinger assinam um protocolo de acordo entre a Santa Sé e a SSPX, que possibilitaria à SSPX trabalhar em prol da tradição litúrgica dentro da Igreja sem qualquer empecilho canônico. Pontos principais: a SSPX tornar-se-ia uma Sociedade de Vida Apostólica com reconhecimento pontifício; o próprio Lefebvre seria autorizado a ordenar seus sacerdotes; um outro Bispo, para sucedê-lo (recebendo, claro, uma diocese titular), seria ordenado entre os padres da SSPX; Lefebvre e os padres acéfalos por ele ordenados teriam as suspensões retiradas; os membros da SSPX prometiam “perpétua fidelidade à Igreja Católica e ao Romano Pontífice, seu Pastor Supremo, Vigário de Cristo, Sucessor do Bem-Aventurado São Pedro e Cabeça do Colégio Episcopal”, declaravam “aceitar a doutrina contida no número 25 da Constituição dogmática Lumen Gentium do CVII sobre o Magistério Eclesiástico e a adesão que lhe é devida” e “acerca de certos pontos ensinados pelo CVII ou acerca das reformas posteriores da liturgia e do direito, e que nos parecem dificilmente conciliáveis com a Tradição, engaja[vam-se] a manter uma atitude positiva de estudo e comunicação com a Sé Apostólica, evitando toda polêmica”. Declaravam, ainda, “reconhecer a validade do Sacrifício da Missa e dos sacramentos celebrados com a intenção de fazer o que faz a Igreja e de acordo com os ritos indicados nas edições típicas do Missal Romano e dos Rituais dos sacramentos promulgados pelos Papas Paulo VI e João Paulo II” e prometiam “respeitar a disciplina comum da Igreja e as leis eclesiásticas, especialmente as contidas no Código de Direito Canônico promulgado pelo Papa João Paulo II”.

No dia seguinte, Lefebvre voltou atrás e disse que sua assinatura e sua palavra dada de nada valiam.

17/6/1988 — Tendo sido alertada de que Lefebvre ainda pretendia consagrar quatro Bispos por “a festa já estar marcada e a Santa Sé estar demorando demais” a responder a suas exigências de undécima hora, feitas logo após ter assinado um acordo e o rasgado no dia seguinte, a Santa Sé manda-lhe um aviso formal, mandando-o desistir de seu intento.

30/6/1988, Lefebvre, assistido por D. Antônio de Castro Mayer, sagra quatro Bispos de Nenhures. Bispos sem Sé nem Cátedra, noivos sem noiva, numa ruptura dramática não apenas com a Sacra Hierarquia, mas com a própria palavra (que é o de menos) e com a totalidade da Tradição e do entendimento imutável da Igreja sobre o papel dos Bispos, o significado da comunhão eclesial, etc.

1/7/1988 — D. Bernardin Cardeal Gantin, Prefeito da Congregação para os Bispos, declara (reitera, na verdade) a excomunhão latae sententiae (ou seja, automática, sem necessidade de declaração) dos quatro neobispos, de D. Lefebvre e de D. Castro Mayer, tendo estes “cometido ato de natureza cismática”, e advertindo ainda que “os padres e os fiéis não adiram ao cisma de D. Lefebvre, pois incorreriam ipso facto na pena muito grave de excomunhão.”

2/7/1988 — S. João Paulo II promulga a Ecclesiae Dei, em que manda seja pelos Bispos “demonstrado por toda parte o respeito aos que se ligam à tradição litúrgica latina pela aplicação ampla e generosa das diretrizes já dadas pela Sé Apostólica para o uso do Missal Romano de acordo com a edição típica de 1962”.

15/8/1990 — S. João Paulo II promulga a Ex Corde Ecclesiae, sobre o ensino católico em escolas e universidades.

25/3/1991 — Marcel Lefebvre falece, ainda excomungado.

28/7/1991 — Três dos quatro Bispos de nenhures originais consagram ilicitamente como quinto Bispo de Nenhures o pe. Licínio Rangel em São Fidelis, Campos, Rio de Janeiro. Seu papel seria “continuar o trabalho de D. Castro Mayer”, mas de alguma forma modernista confusa que eles inventaram ele não seria Bispo (no caso, cismático) da Diocese de Campos, como fora D. Castro Mayer.

25/3/1992 — S. João Paulo II promulga a Pastores Dabo Vobis, sobre a formação sacerdotal.

11/10/1992 — S. João Paulo II promulga o novo Catecismo da Igreja Católica.

6/8/1993 — S. João Paulo II promulga a Veritatis Splendor, sobre a imutabilidade da moral.

14/9/1998 — S. João Paulo II promulga a Fides et Ratio, sobre como a Fé e a Razão devem se complementar.

6/8/2000 — S. João Paulo II promulga a Dominus Iesus, sobre a unicidade e universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja (escrita pelo Cardeal Ratzinger), definindo a leitura ortodoxa do ponto 16 da Lumen Gentium e reiterando que a Igreja Católica é a Igreja de Cristo, fora da qual não há salvação.

2000 — O Cardeal Ratzinger publica seu livro Der Geist der Liturgie (“Introdução ao Espírito da Liturgia”, na tradução portuguesa), em que afirma ter sido enorme o prejuízo causado pela moda de enfiar o padre atrás do altar.

15/8/2001 — Padres de Campos, encabeçados pelo Bispo de Nenhures Licínio Rangel, escrevem à Santa Sé pedindo para voltar à plena comunhão.

Dia de Natal de 2001 — S. João Paulo II os recebe novamente na Igreja e retira a excomunhão de Licínio Rangel.

18/1/2002 — Ereção da Administração Apostólica São João Maria Vianney; Dom Licínio recebe a Diocese Titular de Zarna (na atual Tunísia), passando a poder ser chamado “Dom”, do latim “Dominus”, “senhor [de sua diocese]”.

2/4/2005 — Falece S. João Paulo II; sucedido por Bento XVI

7/7/2007 — Bento XVI promulga o motu proprio (documento escrito por volição pessoal) Summorum Pontificum, em que declara que a liturgia clássica jamais fora abrogada, e salienta que celebrá-la é direito de todo sacerdote latino, sendo os Bispos “fortemente instados” a ensinar a Forma clássica aos seminaristas, bem como é direito de todo fiel ouvi-la e receber os Sacramentos na Forma clássica. Determina ainda que o Breviário pode ser usado pelos clérigos em vez da Liturgia das Horas pós-conciliar.

15/12/2008 — Bernard Fellay, em nome dos dos três outros Bispos consagrados em 30/6/1988, pediu novamente que fosse retirada a excomunhão latae sententiae dos quatro Bispos de Nenhures. Na carta, afirma: “Continuamos sempre firmemente determinados em nossa vontade de permanecer católicos e pôr todas as nossas forças ao serviço da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Igreja Católica Romana. Aceitamos seu ensino com espírito filial. Cremos firmemente no Primado de Pedro e em suas prerrogativas, e é por isto mesmo que tanto sofremos na situação atual”.

21/1/2009 — A excomunhão dos quatro Bispos de Nenhures é retirada. No documento, D. Giovanni Battista, Cardeal Re, Prefeito da Congregação para os Bispos, declara “desprovido de efeito jurídico a partir deste dia [21 de janeiro de 2009] o Decreto [declarando a excomunhão] emitido na época”.

21/1/2009 (no mesmo dia!) — A TV sueca publica entrevista de Willianson, um dos Bispos de Nenhures cuja excomunhão acabara de ser retirada, em que nega o Holocausto, entre outras barbaridades.

4/10/2012 — Após uma série de confusões internas, a SSPX expulsa Williamson por não “mostrar o respeito e a obediência devidos a seus legítimos superiores”(!). Ele é seguido por vários membros da SSPX, e busca ativamente nova excomunhão, que alcança em 2015 ao sagrar Bispo de Nenhures um padre lefebvrista no mosteiro “pirata” liderado em Nova Friburgo-RJ pelo padre Miguel Ferreira da Costa (“Dom Tomás”), a quem ele também sagra Bispo de Nenhures no ano seguinte.

O que se tem aqui, então, após passar por tudo isso? Um clérigo de pouco e mau estudo, formado no triste modernismo de direita maurrasiano, que forma seus discípulos na mesma escola e que, movido pela desesperança na Providência e pelo naturalismo ativista a que seu modernismo o conduz, simplesmente atropela — ainda que nas melhores intenções — o tempo da Igreja e seguidamente atrapalha o afã dos Santos Padres de consertar primeiro os piores horrores da Grande Confusão Pós-Conciliar, com as seguintes consequências:

1 — A pior de todas: ao ir ainda além do discurso dos modernistas de esquerda, que justificavam sua desobediência em matéria litúrgica e doutrinal apelando a um fantasioso “espírito do Concílio Vaticano II”, que teria o dom de negar a letra dos documentos conciliares, Lefebvre pregou a quem quisesse ouvir que o Concílio propriamente dito (de que participara), a desobediência doutrinal e litúrgica, bem como os meros modismos litúrgicos e paralitúrgicos (uso da veste talar, por exemplo) e o próprio Missal paulino eram tudo uma coisa só. Não era mais necessário apelar a um suposto “espírito” quando aquele que se afirmava “porta-voz da Tradição” não apenas concordava com a bizarra noção de “duas Igrejas” como afirmava que o Missal paulino em latim, a missa roquenrol com ministretes de tudo e mais um pouco, e o próprio Concílio Vaticano II seriam uma coisa só, uma vasta paçoca de modernismo em que só o que poderia variar seriam os juízos de valor.

2 — Ao presentear os modernistas de esquerda com o prodígio satânico de unir a forma litúrgica básica tradicional (padre diante do altar, latim, etc.) com o espírito cismático e a desobediência, ele na prática impediu que a reforma litúrgica verdadeira (em contraposição à revolução litúrgica ocorrida no pontificado de S. Paulo VI) ocorresse em seu momento providencial, que provavelmente seria no pontificado de S. João Paulo II. O crescendo da liberação progressiva da forma tradicional, para que ela pudesse informar a celebração do Missal paulino e eliminar as maluquices, iniciado com o indulto dado à Inglaterra e País de Gales por S. Paulo VI e universalizado por S. João Paulo II em 1984, teve uma interrupção abrupta com a sagração dos Bispos de Nenhures em 1988, só podendo ser timidamente retomado muito mais tarde, com o motu proprio Summorum Pontificum, já de Bento XVI, em 2007. E desde a sagração episcopal pelo menos, senão desde a ordenação de padres acéfalos em 1974, todo Bispo e superior religioso passou a temer que esteja imbuído de espírito cismático qualquer padre seu que quisesse celebrar como o Missal paulino foi feito para ser celebrado, com o padre diante do altar (basta ver as rubricas, que mandam “voltar-se para o altar” ou “voltar-se para o povo”) e com pelo menos a Oração Eucarística em latim (que continua sendo impressa em todos os Missais vernaculares). Eu mesmo, quando seminarista, no início dos anos 1990 na Arquidiocese do Rio de Janeiro, após manifestar honestamente a meu superior meu apreço pelo latim e minha incompreensão da razão da celebração com o padre atrás do altar, ouvi dele que ele tinha “medo de [eu] me tornar cismático”. Tenho certeza de que não se trata de um caso raro ou isolado.

3 — Ao abrir a Caixa de Pandora de sua invenção antitradicional dos Bispos de Nenhures, que em tese torna possível ao mesmo tempo estar e não estar em cisma, como um gato de Schrödinger canônico, os quatro viraram logo cinco, e mesmo após o retorno de um deles à Santa Igreja a linhagem lefebvriana de Bispos de Nenhures já conta com mais pelo menos dois, senão três (parece que teria sido sagrado um sétimo Bispo de Nenhures nos EUA por Willianson e os que ele sagrou no Brasil, mas não pude confirmar a informação). Mesmo que ocorra um milagre de conversão simultânea, é extremamente improvável que a brincadeira pare por aí. E, assim como os jansenistas e vétero-católicos que acusavam a Igreja de laxismo e hoje tentam ordenar “padras”, nada indica que do erro possa vir a surgir nada mais que erros piores ainda.

4 — O fato de os modernistas de direita, até pela própria incapacidade estratégica e tática de Lefebvre, não terem representação quase nenhuma na hierarquia enquanto os de esquerda infelizmente ainda a tem (também em enorme medida graças à mesma causa), faz com que sua ação seja mais no campo virtual que real. Na prática, isto significa que o modernismo de direita revelou-se mais presente e mais adepto do uso do ferramental pós-moderno das redes sociais, e ganhou uma sobrevida que o próprio Lefebvre teria enorme dificuldade em entender ao ser lido de forma pós-moderna como uma opção dentre outras num bufê de supostas opções religiosas. Isto acaba fazendo com que surjam inúmeras seitas virtuais que têm em comum apenas alguma forma de percepção da presença na forma clássica da liturgia como ação que, neo-pelagianamente, lhes serve de “sinal dos eleitos”. O resultado prático é que a Missa celebrada pelo Missal de 1962 torna-se verdadeiro pararraios de malucos, especialmente nas capitais, com enorme parcela dos ouvintes mais ocupada em apontar supostos pecados da Sacra Hierarquia ou mesmo de quem não siga o código indumentar que sua modalidade específica de neo-pelagianismo considere “correto”. Isto leva muitos padres que não teriam problema absolutamente algum em celebrar pelo Missal de 1962 a abster-se, por simples medo de atrair esse pessoal. Que, claro, jamais aceitaria aprender dele o que quer que fosse, por não aceitar a Igreja como Mãe e Mestra e não reconhecer os múnera hierárquicos de reger e governar; sua homilia serviria apenas para que eles o acusassem.

5 — O acirramento de ânimos em nossos tempos pós-modernos faz com que a “canonização” de líderes, que sempre foi um hábito modernista, ocorra com virulência ainda maior agora. Isto pôde facilmente ser percebido pelos inúmeros comentários, a que já aludi, recebidos em função do meu vídeo, em que Lefebvre — um homem que morreu excomungado, quiçá (tudo indica…) impenitente — é não só santo, como puro, inerrante, perfeito, e até mesmo sinônimo da Igreja, como se ela fosse o corpo místico dele, não de Cristo.

Passo agora a treplicar o que me foi enviado como réplica a meu vídeo, que segue imediatamente abaixo em itálico, sem edições.

Maria Clara Pinheiro

Essa ocupação liberal na igreja na verdade já vem de bem antes do concilio.

Acredito que por influência da revolução francesa e por ocupação das mesmas.

O papa pio XI, escreveu de fato ótimas enciclicas, era muito culto e suas enciclicas seguem a linha conservadora realmente.

Mas alguns autores relatam que Pio XI fora influenciado pelo discurso progressista e liberal que já andava desde aquela altura na igreja.

E acabou caindo nas ilusões dessas ideias.

Mais em atos do que por documentos ele demonstrava essa influência.

O pior episódio foi durante a guerra dos cristeros no México, acredito que Pio XI realmente confiou no seu conselho e achou que aquilo iria solucionar aquela guerra.

Os cristãos estavam armados e isso lhes garantia a defesa. Mas, na tentativa de solucionar a guerra Pio XI pediu aos cristeros que entregassem as armas e confiassem no Estado.

E então fizeram isso a pedido do papa.

E quando entregaram as armas foram mortos numa chacina terrível

Hj muitos desses mártires já foram canonizados e beatificados.

Então essa solução de Pio XI demonstra o quão estava influenciado pelas ideias progressistas.

Maria Clara Pinheiro

Carlos Ramalhete

na sua primeira enciclicas o São papa Pio X denunciou que os inimigos da igreja estavam na própria igreja:

«Hoje, o inimigo da Igreja não está mais no exterior da Igreja, está no interior».

«O inimigo se encontra nos seminários».

Era evidente que havia nos seminários, seminaristas já cativos do modernismo, Sillonismo, progressismo tornaram se padres.

E por consequência alguns deles tornaram se bispos e cardeais.

Desde o tempo de São Pio X se verificava uma ruptura dentro da igreja.

Marcel Lefebvre nem sempre estudou no seminário em Lille, ele fora estudar também no seminário francês em Roma a pedido dos seus pais para reencontrar seu irmão que vinha da guerra, e aí ele notou claramente a diferença de lille para Roma, como o ensino em Roma havia mudado para esse viés mais modernista.

padre Le Floch, era muito adorado pelos alunos do seminário francês. Não só Marcel Lefebvre, mas muitos alunos tinham profunda admiração pelo padre Le Floch, talvez por ser ali uma resistência a essas transformações nos ensinos dos seminaristas.

Marcel Lefebvre o descreve assim: “Era um homem muito digno, um Bretão, forte e firme na sua fé como o granito da Bretanha. Ele nos ensinava as encíclicas dos papas e o que era o modernismo condenado por S. Pio X, os erros modernos condenados por Leão XIII, o que era o liberalismo condenado por Pio IX. E nós amávamos nosso padre Le Floch.”

Fiz uma pesquisa sobre o padre Le Floch e encontrei imensos artigos em francês a contar como os alunos adoravam no. Já não me lembro de todos os nomes. Outros artigos claro culpam o padre pela influência tradicionalista.

Ele era odiado pelos modernistas e progressistas que já existiam naquele tempo.

O tempo em que Marcel Lefebvre terá estudado por lá será entre 1920 a 1930.

O padre Le Floch desagradava também o governo francês.

O governo Francês temia a formação de sacerdotes pelo padre pois pensavam que isso influiria, que essa formação dada a sacerdotes levaria bispos a França, que mudariam a tendência modernista implantando essa vertente tradicional nas igrejas em França. O governo Francês não queria de forma alguma que as ideias antiliberais tivesse espaço por lá. O governo Francês era maçonico e fundamentalmente liberal. E naquele tempo a influência da igreja era bem maior que nos tempos que correm. Eles não queriam de forma alguma padres,bispos em importantes cargos a exercer essa influência. Pressões diversas foram feitas ao papa Pio XI para eliminar o padre Le Floch. Francisque Gay que tornou -se líder do M.R.P, foi o príncipal encarregado dessa tarefa. Ele denunciou por toda Roma que o padre Le Floch era da chamada “Action Française”, e que estava ensinando os seminaristas a fazerem parte disso politicamente. Os seminaristas negaram totalmente essa acusação e disseram que nunca tinha ouvido sequer ouvido o padre Le Floch falar desse movimento.

Mas o boato estava lançado.

E muitas pessoas começaram a chamar o padre e seus alunos de : nazistas, fascistas e todos os rótulos que se coloca nos que iam contra corrente liberal. Hoje para nós, o liberalismo até nos parece simpático pq aqui no Brasil tivemos que lidar por anos de barbaridade com os comunistas. Que possuem na verdade a mesma origem,a maçonaria..

Sendo que o comunismo só se aplicava onde o domínio já era absoluto. E nas democracias o rumo era o liberalismo. Não o liberalismo de raiz agostiniano, tomista, da escola de Salamanca.

Mas o liberalismo modificado pelos ideais revolucionários..

Maria Clara Pinheiro

Pio XI resolveu investigar , e designou o cardeal arcebispo de Milão, para pesquisar lá no seminário francês se a denúncia feita por Francisque Gay era verdadeira ou não. Ao fim da investigação o arcebispo concluiu que a acusação era falsa e que nada havia de errado no seminário que as aulas do pe Le Floch era absolutamente normal e correta.

Mas isso não alegrou os progressistas,e o governo francês. E entre eles deram ordem para acabar com o padre Le Floch, não aceitaram o resultado da primeira investigação feita pelo cardeal de Milão.

E a nova pesquisa foi feita por um membro das Congregações Romanas. Esse concluiu que o padre Le Floch realmente não induzia os alunos a esse movimento político mas era amigo da “Action Française” e portanto era perigoso para os alunos e devia ser demitido. E ele foi entáo demitido em 1926. O que causou uma grande tristeza nos alunos, e aquele sentimento que o padre tinha sido vítima de uma perseguição injusta. Esse padre foi um grande amigo do papa pio X.

Foi também atacado pelos progressistas o Cardeal Billot, que também foi deposto. Grande teólogo e hoje é um autor muito considerado. Acho que já li alguma coisa dele. Se não me engano.

Este sofreu uma penitência severa ficando preso numa casa de jesuítas. Ao contrário do padre Le Floch onde não se encontrou qualquer prova de ligação com a “Action Française”, o cardeal Billot não fazia parte desse movimento mas de fato nutria admiração pela pessoa do Maurras, e foi acusado parece que de escrever teses liberais baseadas em Maurras.

Foi o que encontraram para liquidar com esse cardeal.

Não sei qual é a natureza dessa tese. Pois também existe muitas vertentes do liberalismo.

E as vezes podemos pensar que o liberalismo é só aquele nocivo e revolucionário progressista.

Tento explicar para muitas pessoas a outra natureza do liberalismo,mas a palavra está de tal maneira estigmatizada. Que quando por exemplo eu falo com alguém sobre da patristica e da escolástica no liberalismo , ou mesmo dos jesuítas que escreveram sobre livre mercado. As pessoas tendem a cair na gargalhada.

Parece-me que a réplica trata apenas de alguns pontos perfeitamente laterais ao argumento principal, mas beleza, vamos lá.

1 — As razões de condenação da Action Française (a que me refiro como “movimento maurrasiano” no texto acima, para facilitar) não foram seu reacionarismo, sim seu modernismo (de direita). E, diga-se de passagem, ela não era — como apontei mais acima — inimiga do Sillon.

2 — O Pe. Le Floch, que foi professor de Lefebvre no Seminário Francês de Roma (não em Lille), tanto influenciava os alunos que o próprio Lefebvre, bem como seus discípulos, continuaram maurrasianos. Não é necessário ter carteirinha de membro de um grupo para aceitar suas ideias e propagá-las.

3 — O liberalismo, que a Igreja condena, não é nem apenas o econômico nem apenas o de esquerda. A própria postura maurrasiana diante da Fé, da Hierarquia, etc., subordinando tudo a uma ideia de Nação, é sumamente moderna e liberal. Como o são a invenção lefebvriana dos Bispos de Nenhures, sua desobediência sistemática à Sagrada Hierarquia, etc.

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